7 Dia - chegada
Depois de mais uma noite num albergue onde a mistura de pessoas é o principal enriquecimento de um peregrino, voltei a acordar antes das seis horas. Desta vez fiquei num quarto com duas jovens da Lituânia, algo que parece quase impensável. Na realidade, durante todo o caminho verifiquei que existe muita confiança para fazer o caminho, principalmente pelas mulheres sozinhas, mas não só, quando eu próprio passei por zonas de denso arvoredo de manhã ainda meio fosco, ou naqueles momentos de 2h sozinho, acreditem que mete medo mas, mais uma vez a palavra chave, Fé.
Ainda no albergue, voltei a encontrar o Breno que me contou que no dia anterior decidiu sair às 5h da manhã, e quando chegou á rua verificou que ainda estava escuro e sentiu receio de ir pelo trilho. Assim optou seguir a estrada, verificando depois que perdeu uma hora de viagem. Ou seja, saiu mais cedo mas de nada valeu. Tal como na nossa vida, por vezes tentamos ganhar tempo, seja num engarrafamento, seja porque queríamos para agora e só marcam para amanhã, seja para o que for e depois vimos a descobrir que foi uma perda de tempo, afinal tinha dado tudo certo se tivéssemos aceitado o que nos proponham, mas adivinhar!
Durante a caminhada de ontem comecei a pensar na possibilidade de terminar hoje, pelas minhas contas chegaria por volta das 17h. Seria a condição física a decidir. Breno voltou a falar disso hoje de manhã, para garantir que tinha alojamento já tinha reservado albergue em Santiago, por isso já não tinha opção. Disse-lhe que não estava a pensar nisso e voltei a referir a situação física, é a chave para tudo.
Saí 6h40, existia uma movimentação na cidade de mais peregrinos, assim seria uma caminhada menos solitária. Ao fim de 30 minutos decidi parar e libertar-se de algum peso, peguei nos 3 pólos, que já vieram com esse objetivo, e deixei-os junto a um contentor, pesavam perto de um kilo, faz toda a diferença. Nesse tempo passaram por mim vários peregrinos e um dos grupos teve o cuidado de questionar se estava tudo bem, os outros apenas as palavras mágicas "buena viagem".
Quando voltei á estrada, passei pela maioria dos peregrinos que me tinham passado e a partir daí, Ninguém! Quase duas horas sem ver vivalma, como é domingo nem os normais habitantes. Só depois quando cheguei á estrada de alcatrão e encontrei um café aberto é que comecei a ver pessoas. Aproveitei para beber um café e carimbar o passaporte.
Depois, já a caminho, com surpresa voltei a ver o Breno. Já tinha feito duas paragens para tomar café, ele tinha saído meia hora antes e a passada dele era mais rápida. Nesta altura confessou que de manhã tinha desmaiado. Ao perguntar sobre a alimentação disse-me que estava só a comer uns lanches e barras energéticas e em relação á fruta bebe apenas "suco natural", deve estar a referir-se aos pacotes que dizem sumo natural, não o estou a ver gastar dinheiro nas bebidas feitas na hora. Como é que um futuro médico tem este tipo de alimentação, sabendo do esforço que é necessário para a caminhada?
Depois da pequena conversa, disse-lhe para avançar que o meu passo é mais lento e assim ele o fez. Não o voltei a ver.
Fiquei a pensar no que ele disse, é um problema grave e não é só dele, muita gente facilita e não cumpre as regras básicas de uma boa alimentação. Eu durante a caminhada só como o jantar em condições, mas como o mesmo completo ou como sopa ou salada.
Nalguns pontos do caminho existem além das mesas pequenos telheiros, seja por causa do sol ou da chuva, são excelentes.

Porque continuamos em zona de serra e muita verdura a água faz parte da paisagem, pequenos riachos, fontes ou até mesmo pequenas cascatas.

Os marcos também são uma constante. Ainda dá conversa com o Breno e sobre invenções que marcaram a nossa sociedade, está seta amarela, que já existia, imaginem a diferença que faz no trilho, sem ela era necessário mapas, eu vinha preparado com um mapa no telemóvel para não me perder, mas não foi preciso, bastava seguir as pequenas setas amarelas, por isso, é uma grande invenção. Nesta parte de Espanha por ter a distância, permite-nos decidir calmamente a distância que pretendemos percorrer.

Entrada de Padron, poluição a dar boas vindas. Foi a imagem deslumbrante que encontrei enquanto descia a serra, um grande rio e a fábrica a libertar aquele fumo, claro que na imagem também existem nuvens.

Em Padron decorria o mercado, um dos maiores que vi até hoje, parecia que eram as festas da cidade. O caminho passava no meio das bancas, ainda pensei passar por outras ruas mas, tinha decidido seguir o trilho e, por isso mantive a rota. Em extensão de bancas foi um km e de parques de estacionamento, parecia um jogo de futebol dos grandes.


Dentro da igreja de Padron. Como tenho feito nas igrejas abertas, entro e registo o momento.

A imponência das construções, como faziam sem equipamentos como existem hoje a deslocação das pedras.

Eram 10h30 quando cheguei a Padron, muito cedo e por isso foi apenas atravessar a cidade e a confusão que existia, nem para um café parei.
Durante toda a viagem senti algo que agora encontrei escrito. É verdade a língua pode ser um obstáculo mas um sorriso ....

Encontrei muitos mosteiros nesta região, ou pelo menos, o que resta deles já que quase todos estão convertidos em quintas.

Os Santuários, normalmente são em locais altos e isolados este é junto á estrada.

Voltei para a natureza, pensei que estava a entrar na terra de alguém mas, é o próprio caminho a passar debaixo das parras e dos cachos de uvas.

Claro, já tinha decidido e, até sentia mais fresqura quando vi a placa dos 7 kms, acreditem mas nas descidas praticamente corria, levava a mochila com nove kg. A partir daí encontrei muitos peregrinos e passaram por mim ciclistas peregrinos. Os peregrinos a pé praticamente estavam todos a descansar, pensava comigo, se eu parar para descansar poderei não conseguir fazer o resto hoje e por isso, passo a passo, deixei-me ir, estava quase. Eram 5h quando cheguei! Muita gente, muitas mochilas, muito ar de cansaço e muitos grupos de turistas com o tradicional guia e a bandeirinha. Não se podia entrar com mochila, por isso decidi procurar um hotel, sim hoje preciso de descansar a sério! Quando regressei para levantar a Compostela tinham acabado de fechar, agora só amanhã de manhã. No caminho tinha visto uma promoção de Menu e um dos pratos bacalhau, fui de novo procurar, pelo menos tinha a satisfação de comer um dos meus pratos, teria sido o acaso ter visto?

Agora, resta-me descansar e de manhã levantar o "prémio" e deixar-me levar pela "onda" do entusiasmo.
Continua no ar a pergunta: porque fiz a caminhada de 265 kms?
Já não quero saber da resposta, isto é prova de que quando realmente queremos e estamos dispostos a pagar o preço conseguimos, mas para isso temos de ter Fé, acreditar e aceitar o que o universo nos dá!
Vou de férias, dentro de alguns meses, volto para a próxima caminhada
Até já!