Os Preparativos

A menos de 24h do início da caminhada já dei início da verdadeira viagem, Beja - Porto de autocarro.
A minha memória durante esta viagem trabalha a mil, recorda tudo o que foi colocado na mochila. Depois de ler dezenas de testemunhos, temos de considerar que todos nós somos diferentes e, ler apenas alguns testemunhos podemos estar a ler de pessoas completamente diferente de nós.
Algo é comum a todos, até porque existem estudos que o referem, a mochila não pode exceder os 10% do nosso peso, ou seja a minha no máximo 8 Kgs. Agora imaginem, para 11 dias como colocar tudo o que preciso?
Entendo a questão de muitas pessoas:
Existe serviço de envio de malas entre albergues?
É verdade que existem pessoas com mobilidade reduzida, de idade avançada e até com crianças de colo e então entendo a necessidade deste serviço, um custo acrescido mas que permite que todos sem exceção possam fazer o caminho. Acreditem, não foi destas pessoas que li os testemunhos, foi de outras que não conseguem libertar-se dos bens materiais e da imagem que querem manter.
Não sei se foi por ter estado na tropa, 18 meses, se foi pela minha educação ou pela minha rebeldia na juventude, a verdade é que sou campista desde os 17 anos e, não por passar férias mais baratas mas sim, pela liberdade que temos neste tipo de vida. Assim para mim, não é difícil "cortar" no que posso devo levar.
Também é comum na maioria dos testemunhos a importância do Kit de emergência e de mais alguns produtos para minorar todos os problemas que possam surgir. Claro, os nossos pés suportam o nosso peso, são eles que nos permitem mover, uma pequena bolha poderá ter consequências graves na nossa caminhada

Por isso, recordo todos os produtos essenciais, cremes, pensos, ligaduras, etc. Depois, a importância de um chapéu e óculos de sol, é julho e em princípio iremos apanhar sol e calor, nada garantido, a natureza nessa área é fantástica, quando pensamos que estamos no verão, ela pode surprender-nos e dar dias de chuva, nevoeiro e até frio. O objetivo é todos os dias iniciar a caminhada cedo.
Água, essencial para a sobrevivência dos seres vivos, é verdade que não vamos para o deserto mas, na caminhada que fiz no Alentejo, depois de ter terminado a minha água andei quase 3h até conseguir arranjar, nem casas, nem fontes e muito menos lojas, como se diz "depois de casa roubada, trancas na porta".
O saco cama, apesar de a maioria dos albergues cederem roupa da cama descartável não é garantido em todos e, porque as camas são partilhadas por muitas pessoas o melhor é garantir e proteger de possíveis danos na nossa saúde.
Para terminar e é do consenso geral, umas sandálias para depois da caminhada os pés descansarem e uns chinelos para dentro do quarto, nunca andar descalço e usar o mesmo calçado de rua não é aconselhável.
Depois de tudo isto, que peso sobra para a roupa?
Li a informação nos albergues e os testemunhos, existe possibilidade de lavar roupa nos albergues, assim não precisamos de complicar. Optei por camisolas ideais para caminhada, transpiraveis e de secagem rápida tal como a roupa interior, maior investimento mas que justifica para uma caminhada mais tranquila.
O calçado que vou usar na caminhada também é consequência da leitura dos testemunhos e já provado na última caminhada, botas (material de sapatilha) também respiráveis e com garantia que aguentam 2h a chover, na anterior caminhada aguentaram uns 20 minutos e sem problemas .
Em termos de comida, um dos maiores problemas, ou não. É ilusão do ser humano a necessidade de quantidades, quando vamos de viagem e ficamos em hotéis o que se vê é um exagero no pequeno almoço, a maioria fica insatisfeita se não existir o tradicional "pequeno almoço europeu".
O mais importante não é a quantidade e por isso optei por umas barras para apoio, adoro fruta mas isso significa peso e por isso está fora de questão, as barras são leves e energéticas.
Também pretendo nesta caminhada aproveitar e conhecer, de outra forma que não quando andamos em turismo, a região. Os testemunhos é que os comerciantes neste percurso até têm preços especiais para os peregrinos e, porque temos de carimbar o passaporte de peregrino duas vezes (no mínimo) por dia, uma será no albergue e a outra no comércio.
Uma boa planificação é essencial para um bom resultado mas, isso não quer dizer que temos tudo sobre controle, a magia da vida são as surpresas, os imprevistos e são eles que vão marcar sem dúvida a nossa viagem.
A questão é: como vamos reagir a todos estes imprevistos?
Outro testemunho que é do consenso geral, a interajuda dos peregrinos. Noutro momento da minha vida e pertencendo a uma organização internacional, que ainda hoje pertenço mas menos participativo, quando fazíamos viagens internacionais e só porque usávamos uma identificação, símbolo, comum a nível internacional, obtinha-se colaboração/amizade sem interesses ocultos. Um dos testemunhos que guardo, foi em Barcelona em 2002. Sozinho procurava a forma de chegar ao evento da organização á saída da estação de comboios. A minha cara devia demonstrar essa preocupação porque uma jovem aproximou-se de mim e perguntou se queria partilhar o táxi, aceitei a oferta e no táxi já estava outro casal, ela era italiana e o casal um italiano e outro alemão. Apenas porque usávamos algo que nos identificava!
Nesta caminhada algo nos identifica e nos UNE, somos Peregrinos.
Algo que falta na nossa sociedade, a partilha sem interesses ocultos.
Até já!
